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11/11/2005
O Falso Defunto

Gosto de coletar os diferentes ¨causos ¨que o povo conta. Este é mais um deles: dizem que, no auge do café em Lins (SP), na década de 50, nossas estradas municipais eram precárias e de terra. Para transportar um grande número de pessoas que trabalhava na lavoura e que vinha à cidade nos finais de semana, havia as antigas jardineiras do Lázaro Franco. Eram coletivos de lataria robusta, bancos duros e motor possante.

Na sua parte exterior havia escadinhas que davam acesso à parte superior que comumente era usada como bagageiro mas que, nos dias de maior movimento,também levava passageiros que se empoleiravam em meio a sacos de açúcar e encomendas das mais variadas que o motorista levava para as diversas fazendas por onde passava. Dada a dificuldade de transporte, o motorista era uma espécie de emissário dos lavradores. Quando morria alguém, o próprio motorista trazia até à Funerária as medidas que os parentes tomavam do morto (altura, largura,etc.). Depois, levava na jardineira, na parte superior, o caixão para que a família pudesse providenciar o enterro sem muitos gastos de transporte. Todos estavam habituados a essa prática solidária e até humanitária.

Num final de semana bastante movimentado, lá seguia a jardineira do Franco, levando o caixão de mais um que partiu desta para outra melhor. A jardineira encheu e, um escurinho lampeiro galgou a parte superior do coletivo empoleirando-se tranqüilamente ao lado do ataúde.

O tempo mudou, começou a chover e o crioulo resolveu entrar no caixão para evitar se molhar. Assim fez e encostou a tampa. Á medida em que ganhava os diferentes pontos, mais e mais pessoas subiam na parte superior do coletivo, amargando um chuvaréu que há muito não se via. Quando a jardineira estava próxima a Guaimbê, o tempo se abriu e parou de chover.

As quase trinta pessoas que seguiam ensopadas, em cima da jardineira, deram graças a Deus.
Foi aí que crioulinho resolveu tomar ar. Abrindo a tampa do caixão, saiu dele, com um largo sorriso, dizendo:
- Ainda bem que a chuva parou, né pessoal ?

Isso feito, foi só gente que saltou lá de cima, apavorada. Era frango voando, gente gritando, saco de arroz se rasgando... Dizem que, mesmo após esclarecido o fato, o Lázaro Franco teve que pintar a jardineira de outra cor e colocá-la na Lins- Getulina, porque o povo não queria mais tomar o coletivo, julgando-o assombrado...
É , são histórias que o povo conta....

Fonte: Site Clube do Fazendeiro
Autor: Cilmar Machado dos Santos


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