Este ¨causo¨ aconteceu na década de 40, lá pras bandas de Guaianás, na região de Jaú, logo após a Segunda Guerra, quando Brasil ainda saboreava a ação de sua Força Expedicionária em campos italianos. Zeca fora um desses pracinhas brasileiros que deixou o trato com os animais e foi combater os alemães. Bronco, semi-alfabetizado, voltou ao Brasil e ao seu trabalho na fazenda, como um autêntico herói. Os peões cercavam-no para saber das novidades: se a guerra era mesmo ruim, se matou muitos inimigos, etc. Zeca a todos respondia e, para demonstrar superioridade, caiu na besteira de dizer que se salvara na guerra graças às santas almas que aprendera a invocar com uma bela ragazza italiana, com quem curtiu uma breve e intensa paixão. Ainda saudoso dela, Zeca desafiou a peonada a uma sessão de invocação espiritual. Muitos tremeram, afinal aquilo não seria coisa do Demo? Mas, como estavam curiosos e foram desafiados em sua coragem, toparam.
E, na sexta-feira, às 9 horas da noite, a função começou. Todos os presentes devoravam o ritual que Zeca matreiramente aprontara: numa mesa grande, estendeu a bandeira italiana que trouxera do campo de batalha, colocou algumas velas acesas protegidas por grossos pires e chamou a todos para iniciar os trabalhos. Os caboclos foram se sentando timidamente nas cadeiras, olhos esbugalhados, coração acelerado... Somente o Ditinho achava aquilo uma grosseira encenação. Mas, calou-se para ver até onde a coisa iria...
Zeca, baixou a cabeça, concentrou-se e pediu a todos que também o fizessem. Não demorou muito e três pancadas fortes se fizeram ouvir na mesa. A bandeira italiana enrugou-se toda como se alguém lhe desse um sonoro beijo. Foi aí que todos ouviram uma voz que, pausadamente, disse:
- Brasilianos! Io sono Mussolini, Benito Mussolini!.. Vagava pelo etéreo e, ao ver gente tão humilde em torno da bandeira de minha Pátria, não pude deixar de agradecer e cumprimentar a todos! Gratille, brasilianos!...
A peonada desmaiou de susto e medo. Só Ditinho permaneceu incrédulo e olhando firme para Zeca, que falou:
- Não acredita, Ditinho? Se quiser comprovar, faça um pedido ao grande Mussolini..
Na sua santa ingenuidade, Ditinho tirou dois cruzeiros (a moeda daquele tempo), atirou-os a um canto da sala e gritou:
- Se ôce é bão mesmo, seu italiano, me traga um sorvete de morango!
Um clarão se fez e um estrondo se ouviu. No canto da sala, o dinheiro havia desaparecido e surgido uma bela cassata de morango!
Foi aí que o Ditinho amarelou. Saiu chispando e nunca mais quis saber de sorvete de casquinha e muito menos italiano!...
Autor: Cilmar Machado dos Santos, publicado no site Portal do Fazendeiro, e adaptado pela Assessoria de Imprensa da SRP