Estado produz 9% acima da média nacional, mas registra margem negativa de R$ 15,27 por saca
O milho segue como um dos pilares do agronegócio brasileiro, mas o cenário atual acende um alerta para a rentabilidade no campo. É o que aponta o novo boletim técnico do Observatório de Indicadores da Sociedade Rural do Paraná (SRP), divulgado em abril de 2026, que reúne dados sobre produção, custos, preços e mercado no Brasil e no estado.
De acordo com o levantamento, elaborado a partir de dados da CONAB, o Brasil deve produzir 139,6 milhões de toneladas de milho na safra 2025/26. O volume representa queda de 1,1% em relação ao ciclo anterior, mesmo com aumento de 3% na área plantada, que chegou a 22,5 milhões de hectares. A retração está relacionada à redução de 4% na produtividade média nacional, impactada principalmente pelo desempenho da segunda safra, a chamada safrinha.
No Paraná, o desempenho técnico segue acima da média brasileira. A produção estimada é de 21,7 milhões de toneladas, o equivalente a 15,57% do total nacional. A produtividade projetada no estado é de 6.773 quilos por hectare, cerca de 9,1% superior à média do país.
Apesar da eficiência produtiva, o boletim evidencia um problema estrutural: a combinação entre alta nos custos de produção e queda nos preços recebidos pelo produtor. Na safra de referência 2024/25, o custo total no Paraná atingiu R$ 69,35 por saca, enquanto o preço médio recebido foi de R$ 54,08. O resultado é uma margem líquida negativa de R$ 15,27 por saca.
O principal fator de pressão é o custo fixo, que no estado alcança R$ 13,44 por saca, o maior entre os estados monitorados pela CONAB. Esse custo está associado à estrutura produtiva, incluindo máquinas, equipamentos e capital investido, ampliada durante o período de preços elevados entre 2020 e 2022.
Para o presidente da Sociedade Rural do Paraná, Marcelo Janene El-Kadre, os dados reforçam a necessidade de ampliar o debate sobre alternativas que ajudem a melhorar a rentabilidade do produtor e criem novas oportunidades de mercado para o milho.
“Londrina e o Norte do Paraná têm produtores tecnicamente muito eficientes, que conseguem alcançar bons índices de produtividade. Mas o boletim mostra que produtividade, sozinha, não garante rentabilidade. Enquanto Sociedade Rural do Paraná, precisamos olhar para alternativas que ajudem o produtor a melhorar sua margem e ampliar as possibilidades de mercado para o milho. O etanol de milho é uma vertente que pode ser promissora, porque cria uma nova demanda para o grão, agrega valor à produção e ainda pode oferecer ao consumidor um biocombustível competitivo em relação ao etanol tradicional. Esse é um debate importante para toda a cadeia”, afirma.
O caso de Londrina ajuda a dimensionar esse desafio. Em novembro de 2025, o custo total chegou a R$ 77,73 por saca. Entre 2022 e 2025, o produtor operou com margem negativa na maior parte dos períodos analisados. O pior momento ocorreu em setembro de 2023, quando a margem atingiu -R$ 22,73 por saca, reflexo da forte queda nos preços após a supersafra brasileira.
Outro ponto crítico está na composição dos custos variáveis. Fertilizantes representam 27,9% do custo, enquanto sementes respondem por 20,3%. Juntos, esses dois itens somam 48,1% dos gastos variáveis. Por serem insumos fortemente influenciados pelo câmbio e pelo mercado internacional, eles reduzem a capacidade de ajuste do produtor diante da volatilidade de preços.
Brasil como grande produtor
No mercado nacional, o crescimento da produção nas últimas décadas transformou o Brasil em protagonista nas exportações de milho. Ao mesmo tempo, o aumento da oferta gerou excedentes e elevação dos estoques, pressionando as cotações. Mesmo com a expansão do consumo interno, especialmente para ração animal e etanol de milho, a demanda ainda não acompanha o ritmo da produção.
Para 2026, as perspectivas indicam preços entre R$ 55 e R$ 65 por saca, ainda abaixo do custo total em regiões como o Norte do Paraná. Uma recuperação mais consistente dependerá de fatores externos, como câmbio, demanda internacional e condições climáticas.
O boletim conclui que o produtor paranaense vive um cenário paradoxal: alta eficiência produtiva combinada com baixa rentabilidade. Diante desse quadro, estratégias como proteção de riscos, contratos a termo e diversificação produtiva ganham importância na gestão das propriedades.
Elaborado com base em dados da CONAB, IBGE, CEPEA e outras fontes oficiais, o boletim do Observatório de Indicadores da SRP tem como objetivo apoiar a tomada de decisão no campo, oferecendo uma análise integrada entre produção, mercado e custos.