Encontro realizado pela Sociedade Rural do Paraná mostrou que os impactos vão além dos impostos e devem alcançar contratos, fluxo de caixa, compras, controles internos e a própria gestão da atividade rural
A Reforma Tributária já exige atenção do produtor rural antes mesmo da entrada das principais mudanças previstas para 2027. O alerta marcou a nova edição do Circuito SRP, realizada nesta terça-feira (6), pela Sociedade Rural do Paraná (SRP), no Parque Ney Braga, em Londrina.
Com o tema “Reforma Tributária para Produtores Rurais — A Hora é AGORA!”, o encontro reuniu produtores rurais e profissionais do setor para discutir, de forma prática, como o novo sistema tributário deve interferir na rotina das propriedades e empresas do agronegócio.
A programação foi conduzida por Werinton Garcia Moreno, CEO da Garcia & Moreno Consultoria Corporativa, contador e especialista em tributação aplicada ao agronegócio, e Milton Cesar da Silva, consultor de tributos indiretos e líder de projeto do Grupo de Estudos da Reforma Tributária do Agronegócio (GERT-Agro).
Na abertura, o presidente da Sociedade Rural do Paraná, Ilson Romanelli, destacou que os reflexos da Reforma Tributária devem ser analisados para além do recolhimento de impostos.
“Estamos diante de uma mudança que irá impactar não só a parte tributária, mas também a gestão das propriedades, os contratos de comercialização, as compras, as planilhas de custos e a formação de preços. Tenho a certeza que esse é justamente o papel da Sociedade Rural: estar próxima do produtor, trazer informação e ajudar a preparar o setor para os desafios que estão pela frente”, afirmou.
Ao longo da manhã, os especialistas reforçaram que a Reforma Tributária não deve ser tratada apenas como uma mudança na forma de recolher impostos. Seus efeitos devem alcançar decisões de compra e venda, formação de preços, contratos, sistemas de gestão, documentos fiscais, controles financeiros e necessidade de capital de giro.
Para Werinton, o momento é de atenção e preparação. “Estamos em um momento crucial e importante, precisamos de um planejamento agora. Esse é o momento”, afirmou.
Embora a transição para o novo sistema seja gradual, a orientação apresentada durante o Circuito foi para que produtores aproveitem os últimos meses de 2026 para analisar a realidade de cada propriedade, buscar orientação técnica e preparar processos internos para as mudanças que começam a produzir efeitos no próximo ano.
Contratos exigem atenção
Entre os principais pontos levantados durante o encontro estão os contratos que já alcançam 2027. Operações de compra e venda, prestação de serviços e comercialização da produção firmadas atualmente podem atravessar períodos com regras tributárias diferentes.
Nesse cenário, a definição clara do valor da mercadoria ou do serviço e das responsabilidades relacionadas aos tributos ganha importância para evitar desequilíbrios financeiros.
Milton chamou atenção para a necessidade de incorporar esse acompanhamento à rotina do negócio. “Nós precisamos manter um controle em nossos cadastros e manter isso bem claro nos contratos, para que as variações de regime de um prestador de serviço mantenham o equilíbrio econômico-financeiro das nossas compras”, destacou.
Durante a palestra, foram apresentados exemplos de contratos de comercialização que, caso não considerem adequadamente os efeitos da transição tributária, podem fazer com que valores não previstos sejam absorvidos pelo próprio produtor.
A recomendação é que contratos de médio e longo prazo sejam analisados antes da entrada das novas regras, tanto nas relações de compra quanto nas de venda.
Uma nova lógica para as compras
A Reforma Tributária também deverá alterar a maneira como o produtor avalia fornecedores e toma decisões de compra.
Com a sistemática de créditos prevista no novo modelo, analisar somente o preço final apresentado em uma negociação poderá não ser suficiente. O enquadramento tributário do fornecedor e os créditos gerados pela operação também passam a interferir no custo efetivo da aquisição.
Durante a apresentação, Werinton resumiu uma das mudanças de raciocínio que deverão fazer parte da gestão rural. “Uma coisa é fluxo de dinheiro, que é caixa, outra coisa é custo. Custo e dinheiro passam a ser coisas diferentes na reforma”, explicou.
Isso significa que uma operação que exige maior desembolso imediato não necessariamente representa um custo maior para o negócio, caso parte desse valor possa ser posteriormente apropriada como crédito tributário.
A mudança amplia a necessidade de controle sobre compras, fornecedores e documentos fiscais e coloca a gestão tributária cada vez mais próxima das decisões comerciais da propriedade.
Fluxo de caixa entra no centro da gestão
Ao mesmo tempo em que o novo sistema prevê mecanismos de crédito e compensação, os especialistas chamaram atenção para a necessidade de acompanhar o impacto financeiro dessas operações.
Antes que determinados créditos possam ser utilizados ou recuperados, haverá situações em que o recurso precisará sair do caixa. Para atividades agropecuárias com ciclos produtivos mais longos, esse intervalo ganha ainda mais relevância.
Dessa forma, a necessidade de capital de giro passa a ser um dos pontos estratégicos da preparação para a Reforma Tributária. Mais do que calcular a incidência dos tributos, o produtor precisará entender quando os recursos serão desembolsados, como serão recuperados e qual será o impacto desse movimento financeiro sobre a operação.
Gestão e controles ganham importância
O encontro também abordou as mudanças cadastrais previstas para a atividade rural e o avanço do CNPJ como instrumento de identificação das atividades econômicas do produtor, inclusive em situações nas quais ele continua atuando como pessoa física.
Segundo os palestrantes, a mudança reforça a necessidade de separar de maneira mais organizada a movimentação da atividade produtiva daquela relacionada à vida pessoal, além de ampliar a importância dos controles internos, sistemas de gestão e organização documental.
A preparação para o novo cenário, portanto, não passa apenas pelo contador. Áreas de compras, financeiro, administração, tecnologia e tomada de decisão também deverão estar integradas para que a propriedade consiga acompanhar as novas regras e avaliar seus efeitos sobre o negócio.
Ainda há pontos da regulamentação em definição, mas a mensagem apresentada durante o Circuito SRP foi de que isso não deve adiar a preparação. O novo sistema já está em processo de implementação e exigirá mudanças progressivas na forma como produtores e empresas organizam suas operações.
Ao promover o encontro, a Sociedade Rural do Paraná reforça a proposta do Circuito SRP de aproximar temas estratégicos da realidade do produtor rural, oferecendo informação e conhecimento para decisões que impactam diretamente a competitividade e a sustentabilidade dos negócios no campo.