Boletim do Observatório de Indicadores da SRP mostra que avanço tecnológico compensou a redução de área, enquanto rentabilidade pressiona produtores e abre espaço para novas culturas de inverno
O Paraná está produzindo praticamente a mesma quantidade de trigo em uma área cada vez menor. Em apenas dois anos, a previsão é que a área cultivada no estado caia de 1,1 milhão para 722 mil hectares, uma retração de 35%. Ainda assim, a produção estimada para a safra 2025/26 é de 2,36 milhões de toneladas, próxima ao volume registrado em 2023/24. A explicação está no salto de produtividade alcançado pelos produtores, que atingiram níveis historicamente elevados nas últimas safras.
Os dados integram o novo boletim do Observatório de Indicadores da Sociedade Rural do Paraná (SRP), que analisa o desempenho da triticultura no estado e os movimentos que estão transformando a agricultura de inverno.
Entre as safras 2023/24 e 2024/25, a área de trigo recuou 25%, com previsão de nova redução de 13% em 2025/26. No mesmo período, a produtividade saltou de 2.139 quilos por hectare para o recorde de 3.476 quilos por hectare na safra passada. Para o ciclo atual, a estimativa é de 3.272 quilos por hectare, índice ainda muito acima da média histórica da cultura.
Para a diretora de Inovação da Sociedade Rural do Paraná e coordenadora do Observatório de Indicadores, Tatiana Fiuza, os números mostram que a discussão sobre o trigo deixou de ser apenas produtiva e passou a refletir mudanças estruturais na ocupação das áreas agrícolas de inverno.
"Os dados mostram que o produtor paranaense continua investindo em tecnologia e alcançando excelentes resultados dentro da porteira. O que estamos observando é uma reconfiguração da agricultura de inverno. O trigo permanece estratégico para o Paraná, mas a redução da área indica que o produtor está avaliando cada vez mais o retorno econômico das diferentes alternativas disponíveis para essa janela de cultivo", afirma.
O desafio é econômico
Se a produtividade nunca foi tão alta, a rentabilidade segue sendo o principal entrave para a expansão da cultura.Em maio de 2026, o preço médio pago ao produtor foi de R$ 67,72 por saca, valor 15% inferior ao registrado no mesmo período do ano anterior e 30% abaixo do pico de preços observado em 2022.
Nas principais regiões produtoras, as margens permanecem negativas. Em Londrina, o resultado bruto é estimado em déficit de R$ 652,00 por hectare. Em Cascavel, o saldo também é negativo, em R$ 118,00 por hectare.
Para remunerar integralmente a atividade, incluindo a terra e o capital investido, o trigo deveria ser comercializado a R$ 103,75 por saca em Londrina e R$ 93,20 em Cascavel, patamares muito acima dos preços atuais de mercado.
Segundo o estudo, o trigo ainda consegue remunerar os custos operacionais da lavoura, mas encontra dificuldades para gerar retorno adequado sobre a estrutura produtiva, fator que ajuda a explicar a redução gradual da área cultivada.
"A redução da área não significa que o produtor deixou de acreditar no trigo. O que os dados mostram é que a decisão de plantio está cada vez mais ligada à capacidade de remuneração da atividade. Em um ambiente de margens apertadas, o produtor precisa ser ainda mais eficiente para manter a competitividade da cultura dentro da propriedade", destaca Tatiana.
Participação nacional encolhe
O boletim também evidencia uma mudança no protagonismo do Paraná na produção nacional de trigo. Na década de 1990, o estado chegou a responder por mais de 70% da produção brasileira. Em 2024, essa participação caiu para aproximadamente 30%, o menor percentual de toda a série histórica analisada.
Mesmo assim, o trigo continua sendo uma atividade de grande relevância econômica. Na safra 2023/24, o Valor Bruto da Produção (VBP) do complexo trigo alcançou R$ 2,85 bilhões, distribuídos em 308 municípios paranaenses. O Sudoeste lidera a geração de riqueza da cadeia, respondendo por mais de R$ 728 milhões em VBP.
Novas alternativas para o inverno
A perda de área do trigo também está relacionada ao avanço de outras culturas de inverno. O boletim destaca especialmente a expansão da canola, impulsionada pela demanda da indústria de biocombustíveis e pela busca dos produtores por alternativas mais rentáveis.
No Brasil, a área cultivada com canola deverá saltar de 35 mil hectares em 2020 para 324 mil hectares em 2026, um crescimento de nove vezes em apenas seis anos. No Paraná, a retomada é mais tímida, mas também significativa: a área deve passar de 2 mil hectares em 2025 para 4,3 mil hectares em 2026, com produção estimada em 7,4 mil toneladas.
"O trigo continuará desempenhando um papel fundamental nos sistemas produtivos do Paraná. No entanto, culturas como a canola mostram que a agricultura de inverno está se tornando mais diversificada, e acompanhar essas tendências é essencial para entender os próximos movimentos do setor", observa Tatiana.
Mercado depende cada vez mais do cenário externo
Além dos desafios internos, o mercado brasileiro segue fortemente dependente das importações. O consumo nacional está estável em cerca de 11,8 milhões de toneladas por ano, mas a produção doméstica não consegue acompanhar essa demanda.
Em 2024, o Brasil importou quase 6,8 milhões de toneladas de trigo, volume equivalente a cerca de 45% do suprimento nacional e próximo da própria produção brasileira, de 7,9 milhões de toneladas. O estoque de passagem projetado para 2025, de 1,46 milhão de toneladas, é historicamente baixo e deixa o mercado mais vulnerável a eventuais quebras de safra no Brasil ou na Argentina.
As conclusões do Observatório são: o principal desafio do trigo paranaense hoje não é produzir mais. O estado dispõe de tecnologia, conhecimento e capacidade produtiva para alcançar rendimentos recordes. A questão central está na construção de uma equação econômica que garanta remuneração adequada ao produtor e mantenha a atratividade da cultura em um ambiente de inverno cada vez mais diversificado e competitivo.
O boletim completo está disponível no Observatório de Indicadores da Sociedade Rural do Paraná e reúne análises sobre produção, mercado, produtividade, custos, rentabilidade e tendências para a agricultura de inverno.